As pessoas
Daqueles que participaram do primeiro encontro, apenas o Leonídas não pode continuar com o grupo; continuaram o Yanis, a Maria, o Dimítris, o Giorgos, o Panaiótis, a Vasúla, e eu. A Kália e a Elise que não puderam participar do primeiro encontro, mas que estavam confirmadas para a sequência se integraram ao grupo. Também se integraram ao grupo o Spiros (falei dele aqui) e o Vassílis. Contamos ainda com o Vangélis Stavroulákis, o assistente, e com o novo instrutor Alexandros Tsilogeorgis, totalizando 13 pessoas. Em geral o grupo se entrosou bem e dividiu bem as tarefas.
O instrutor
O Alekos, como chamamos o instrutor e quase todos os Alexandros da Grécia, é completamente diferente do Vangélis Vroutsis. Muito mais extroverdido, é do tipo que gosta de chamar a atenção, dando gritos totalmente inesperados ou cantando alto. Longe de ser desagradável é ainda um comportamento desnecessário. Por outro lado é tão ou mais qualificado que o Vroutsis, seja pela experiência adquirida em escaladas no Himalaia, Antártida, Peru e diversas montanhas da Europa, seja pela qualificação institucional que lhe confere o status de guia de montanha da UIAGM. Indiscutível que conhecimento não lhe falta e isso ele mostrou na prática, apesar de reconhecer que o mais forte dele é o esqui, de todos os tipos. O grande ganho com a trágica substituição do Vroutsis por ele foi um caráter muito mais prático para o curso, que com o primeiro seria bem mais teórico, como foi o primeiro final de semana.
O refúgio
Como sabia que o refúgio era novo, criei uma expectativa a respeito dele e acabei ficando totalmente desapontado. Eles praticamente reconstruíram o abrigo anterior, de pequenas dimensões, mas de alvenaria e forrado de madeira na parte interna. Um mezanino aproveitou melhor o espaço permitindo camas no nível superior. As condições na área de jantar/dormir que é compartilhada é ótima, e uma salamandra ajuda a aquecer o ambiente. A iluminação é garantida com um lustre "lampião" ligado a um bujão de gás, o que acho particularmente perigoso. O fiasco é a cozinha que fica logo na entrada, junto com a área para retirar botas e o equipamento. A cozinha oferece pratos e talheres, um fogareiro e muita sujeira. Além das péssimas condições de manutenção da cozinha, os pacotes de comida que os visitantes vão deixando por preguiça de levar para baixo, bagunçam o ambiente e servem de alimento para os animais que fazem questão de marcar presença com suas fezes.
O fundo do poço é o banheiro. Do lado de fora, longe da entrada, é totalmente inconveniente, principalmente se estivesse chovendo. No local de acesso acumula neve e fica na linha de queda do gelo que acumula no telhado. Além da pia e da latrina, mais nada é oferecido, como um local para apoiar coisas ou por o papel higiênico. Uma ducha seria interessante pelo menos para auxiliar num banho de gato. Apesar da minha apreensão com relação à latrina, me parece uma ótima escolha, já que é bem mais higiênica (tanto para o grupo como individualmente) e mais fácil de limpar do que uma patente (vaso sanitário).
O Equipamento
O equipamento foi tomado emprestado do Clube de Montanhismo de Chaniá para aqueles que são socios deste clube e do Clube de Montanhismo de Réthymno para aqueles que são sócios deste outro. Emprestaram cordas, mosquetões, freios oito, crampons, piolet, cordeletes, fitas, capacetes e ancoragens de alumínio para a neve. O equipamento cedido pelo Clube de Chaniá estavam em condições bem ruins, alguns de segurança questionável, como algumas fitas e uma corda. O almoxarife fez questão de nos dar o material do mais velho para o mais novo, uma vez que ele mesmo ia com alguns amigos para uma atividade no final de semana e quis garantir o melhor para ele. O equipamento cedido pelo clube de Réthymno por outro lado, estava impecável e alguns artigos estavam sendo usados pela primeira vez.
O Curso
Quinta-feira (12/3/2009)
Saí de Chaniá no final da tarde dando carona para a Kália e para a Elise debaixo de chuva. O espaço restante do carro estava ocupado com nossas mochilas e com todo o equipamento cedido pelo clube de Chaniá.
Chegamos ao vilarejo de Néo Horió na hora marcada e encontramos o restante do grupo. Lá, deixamos os carros de passeio e abarrotamos os 4x4, que por sorte eram o suficiente para levar todos e tudo; um Vitara do Vassílis, um Niva do Vangélis e um Honda do Yannis. A Vassoúla não estava presente, mas viria mais tarde e subiria com o Jimmy (Susuki).
De Néo Horió partimos para Madaró o último vilarejo antes da subida para o refúgio Vólikas, uma estrada de cerca de 8 km, de terra/pedra em péssima condições. Em Madaró aliviamos um pouco a carga dos carros, principalmente o Honda que é uma destas farsas estilo EcoSport, transferindo algumas mochilas e equipamentos para a caminhonete do Spiros que nos esperava lá, uma Nissan velha que lembra as Toyotas.
Vinte minutos de subida até os primeiros sinais de neve, e mais dez até vermos uma curva coberta de neve que interrompeu prematuramente a subida de carro. Descarregamos tudo, vestimos gaiters (proteção para evitar a entrada de neve na bota) e seguimos a pé, para ver que poucos metros depois a neve terminava e teria sido tranquilo passar de carro. Cerca de 100 metros depois a estrada terminava e começamos a subir uma encosta relativamente íngreme e acidentada, com pedras e arbustos, parcialmente coberta de neve, um perigo para as articulações. Em não mais do que 20 minutos chegamos ao refúgio. Cada um escolheu sua cama, ajeitou suas coisas e fomos para a primeira conversa oficial do curso, onde o Alekos se apresentou, falou um pouco da história dele e do montanhismo e quis saber um pouco de cada um.
Depois da janta já era tarde e sem muitas delongas aos poucos fomos para cama, com uma neve tímida caindo do lado de fora.
Sexta-feira (13/03/2009)
Acordamos bastante tarde, por volta de oito horas. Depois do café, devido ao tempo ruim - estava nevando - aproveitamos para fazer uma parte teórica do curso. Mais uma vez ele falou de vestuário e equipamento, como tinha sido com o Vroutsis, bastante mais rápido, mas mostrando o equipamento. Aproveitamos também para ajustar os crampons nas botas.
Depois de ajustarmos os crampons, tomamos água e fizemos um lanche rápido antes da nossa primeira aula prática. Saímos apenas com piolet, já que ficaríamos perto do refúgio. Nem água levamos por orientação do professor. Mas ele acabou se empolgando e fomos nos afastando. Aprendemos como andar na neve, tipos de pisadas, e como andar usando o piolet como segurança. Revezamos a liderança para marcar as pegadas. Todavia, sem muitas orientações de como escolher uma rota, ou reconhecer lugares mais ou menos expostos de acordo com a qualidade da neve. A neve estava bem fofa. Uma camada de neve fresca de cerca de 15 centímetros tinha abaixo uma camada mais velha de neve que estava marrom, suja do período em que uma nuvem de areia Africana pairou sobre Creta, uma ou duas semanas atrás. A grande quantidade de arbustos e pedras também favorecem o derretimento da neve em alguns pontos nos fazendo afundar as pernas até a altura da cintura algumas vezes.
Caminhamos bastante e paramos em dois pontos diferentes, no primeiro para aprender a interromper uma queda quando não estamos usando piolet e no segundo para interromper uma queda com o uso de piolet. Praticamos bastante em todas as posições possíveis, de cabeça para cima, de cabeça para baixo, tórax para cima, tórax para baixo, e as possíveis combinações. Foi diversão garantida.
Na volta ao abrigo não teve muito bate-papo, preparamos o arroz com frango para a janta, e fomos deitar. O abrigo recebeu ainda mais 5 montanhistas que vieram passar a noite para partir no dia seguinte para outro refúgio. Devido ao vento intenso não foi possível manter a salamandra acesa por causa da fumaça que entrava e tivemos uma noite um pouco mais fria.
Sábado (14/03/2008)
Depois de muitas tentativas e de duvidar que a maioria consiga repetir um rapel em segurança, saímos para a parte prática. Revisamos como caminhar na neve, e fomos para um local protegido do vento, que passava dos 50 km/h com rajadas de até 80 km/h, reduzindo sensivelmente a temperatura. Neste local, aprendemos a fazer buscas por vítimas de avalanches (fora do currículo), primeiro usando uma ponteira para neve e improvisando com bastões de caminhadas e depois usando um par de ARVAs, que permitem encontrar muito mais rapidamente e com precisão uma vítima. Obviamente aprendemos também a cavar, usando uma pá para neve.
Enquanto alguns praticavam com o ARVA, os outros deram início a um abrigo na neve, também excepcional ao programa do curso. Perdemos três horas fazendo o tal buraco na neve, o que para mim configurou uma extremo desperdício de tempo. Por alguma razão tola, ele quis que o abrigo tivesse tamanho suficiente para socar todo mundo dentro, e assim foi.
Depois de um dia no frio, a sopa preparada com o resto do arroz do dia anterior, até que serviu bem os apetites. Chegou minha vez de lavar a louça, um grande sacrifício dada a temperatura da água. Depois da louça ainda tivemos uma aula sobre hidratação e nutrição na montanha. Foi necessário também fazer minha estréia na latrina, um sucesso. O vento continuava intenso e passamos mais uma noite sem a salamandra ligada. Nada que um saco de dormir de verão mais uma coberta do próprio refúgio não resolvesse.
Domingo (15/03/2009)
O último dia foi o dia de experimentarmos os crampons mesmo a neve estando relativamente fofa. Aprendemos desta vez como andar na neve, em diferentes situações com o uso de crampons e as diferenças de quando não o usamos.
Caminhamos bastante até uma calha de neve onde o Alekos demonstrou uma ascenção com o uso de segurança por corda. Obviamente desnecessário o uso de corda, já que tínhamos praticado quedas num lugar tão ou mais inclinado, a demonstração fez sucesso e mais uma vez elevou os ânimos de todos que se sentiram passando limites subindo encordados, muito legal.
Depois de aprender sobre ancoragens nos encordamos em duas equipes para aprender um pouco como andar encordados e travar quedas individuais ou em grupo. A prática foi legal, mas deu de ver também que poucos se lembravam como fazer o nó oito. Pouca instrução foi dada também de quando optar por este tipo progressão. Fora o uso de crampons tudo neste dia foi ensinado além do programa, e terminamos praticando um pouco de segurança de corpo na descida de um barranco pedregoso. Descemos de volta para o refúgio. Chegou a hora de empacotar as coisas e descer para casa. Depois da neve no primeiro dia dificilmente nevou e os dias bons, algumas vezes encobertos foram suficientes para dar fim na neve nas partes mais expostas.
Link para o álbum desta publicação: Curso: final de semana 2