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Pequenos comentários sobre minhas pequenas aventuras na ilha de Creta e, quem sabe, em outros lugares.
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sábado, 12 de dezembro de 2009
Porto de Chaniá
Foto Panorâmica do Porto de Chaniá. É possível ver a Léfka Óri à direita e o Monte Várdia à esquerda.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Olha a neve
De terça para quarta desta semana o tempo fechou de novo e a temperatura caiu vários graus aqui embaixo. Lá em cima nevou. Quarta-feira de manhã peguei uma das poucas ou talvez a única brecha no tempo e pude ver com que cor estão as montanhas que até um dia antes estavam marrons. Estava na universidade quando fiz a foto.
sábado, 7 de novembro de 2009
Ida para Iráklio
Em primeiro lugar, o fato de que a Anamaria e eu acordamos cedo no primeiro dia bonito depois de dias seguidos de chuva. Como o céu finalmente não estava encoberto, durante o trajeto pudemos ver as partes mais altas das montanhas com os primeiros respingos de neve do inverno que se aproxima. Obviamente nevou na montanha enquanto chovia aqui embaixo e tanto a Lefká Óri em Chaniá, como o Psiloritis em Iráklio/Réthymno já tinham os picos mais altos brancos da neve que a esta hora já derreteu com o ar quente que soprou da África nos dias que se seguiram.
Como o tempo era curto visitamos rapidamente o palácio de Knosós e fizemos um lanche no centro.
(Não coloquei as fotos num álbum, mas elas podem ser ampliadas com um clique.)
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quinta-feira, 9 de abril de 2009
Curso: final de semana 3 (final)
Finalmente terminei o curso de introdução ao montanhismo. Em virtude do trabalho acumulado e da viagem na semana que passou só agora estou escrevendo, sob pena de esquecer algum aspecto interessante do curso.
Nos reunimos do dia 24 ao dia 29 de março de 2009, terça-feira à domingo. O ponto de encontro foi o Monastério de Arkadi, já na região de Réthymno, de onde partimos no final da tarde de terça para o refúgio do Clube de Montanhismo de Réthymno no Psiloritis.
Psiloritis é o nome da formação montanhosa na região central de Creta e cobre parcialmente as regiões de Heráklio e Réthymno. É no Psoliritis que está o ponto mais alto de Creta, o Tímios Tavros com 2456 m de altura, apenas 3 metros mais alto que o Monte Pachnes na Lefká Óri na região de Chaniá e motivo de brigas eternas entre as duas regiões. Há quem diga que os montanhistas de Chaniá colocam pedras no cume do Pachnes para que ele um dia e torne mais alto...
O refúgio que ficamos no Psiloritis é o que tem a melhor infraestrutura entre os três que visitei. é todo construído de pedra, bem espaçoso e por estas duas características é também bastante frio e úmido. Conta com um gerador a gasolina e com calefação, além de uma lareira. A cozinha é ampla e bem equipada. O banheiro também é espaçoso mas está em condições que deixam a desejar. Como nos outros a entrada tem um hall para tirar as botas que é minúscula e seria mais útil se não estivesse ali. Uma varanda ajuda a proteger um pouco a chegada. Não contei o número de lugares, mas os beliches estão divididos em dois andares e possuem colchão e cobertas.
Partimos do Monastério de Arkadi, o ponto de encontro em fila. Desta vez peguei carona desde Chaniá junto com o Vassílis e também a Kália. Todos da última etapa do curso estava presentes exceto a Vassoúla e a Elise que chegariam mais tarde. Fizemos uma parada rápida numa confeitaria e seguimos adiante. Uma estrada de terra interminável leva até o abrigo. Muito antes de começarmos o trajeto de terra, já era noite e logo uma neblina densa cobriu a montanha não permitindo ver um metro à frente. Seguimos devagar sem ter muita idéia das ribanceiras escondidas pela neblina na beira da estrada. A quarenta minutos de caminhada do refúgio a estrada estava interropida pela neve.
Chegamos a começar a cavar com pás e piolets, mas dois que foram a frente logo voltaram dizendo que o esforço seria em vão já que havia outras barreiras à frente. Pegamos nossas mochilas e o que podíamos de comida e continuamos a pé. Chegamos no refúgio por volta das 22h30 e imediatamente providenciamos o fogo na lareira e a janta. Dei uma volta rápida pelo refúgio para me familiariar com ele, escolhi minha cama e separei uma coberta.
Fomos deitar tarde, depois de 1 h da madrugada. Isto inviabilizou o planejamento inicial de fazer a subido ao Tímios Távros, cume do Psiloritis já na quarta-feira cedo. O planejamento exato era subir o Tímios Távros na quarta, descansar na quinta com teoria, fazer alguns exercícios na neve na sexta e no final da tarde ir de novo para o refúgio Vólikas para no sábado subir um cume tecnicamente mais difícil. Aos poucos foi ficando claro que o instrutor não estava afim de seguir o plano e as mudanças já começaram na quarta-feira. O tempo também não ajudou e mesmo que ele quisesse não poderíamos subir na quarta.
Quarta-feira foi um dia bem mal aproveitado e entediante. Fizemos uma revisão meia boca daquilo que tínhamos aprendido no primeiro encontro com o Vroutsis sobre navegação e orientação. Traçamos a rota desejada para o Tímios Távros, a qual viríamos a seguir na quinta-feira. No final da tarde fizemos um almoço janta que foi ótimo para distrair um pouco. O tempo do lado de fora melhorou um pouco e aproveitei para ir ver como o refúgio era por fora. Depois da janta tivemos a parte de primeiros socorros, com o próprio instrutor, o Alekos, extremamente superficial e teórica. Basicamente alguém ia lendo a apostila e ele fazia comentários extras que achava pertinente. Falou de queimaduras, congelamento, insolação, desidratação, animais e insetos peçonhentos e transporte de vítimas. Depois da aula, fomos para a cama, antes das 22h00 com planos de acordar cedo no dia seguinte.
Às 05h00 da manhã de quinta-feira estávamos de pé. Uma tempestade atingiu o abrigo durante a noite e tinha neve colada na janela, mas o tempo no amanhecer estava perfeito. Tomamos café da manhã preparamos o equipamento e saímos pouco antes das 08h00, seguindo a trajeto planejado com mapa e bússola. Inicialmente partimos em dois grupos por uma parte não nevada e depois nos juntamos num grupo só quando começamos a andar pela neve. A subida é bastante simples sem nenhuma exigência técnica e nenhum trecho de grande inclinação. Depois que saímos da parte de terra andamos por um platô de neve e antes de iniciarmos a subida colocamos crampons e pegamos o piolet. Logo também nos encordamos, apesar de que normalmente não seria necessário subir encordado.
Não há muito o que falar da subida, uma neblina forte cobriu boa parte da subida não permitindo ver os arredores. Perto do cume há uma depressão onde pudemos ver pequenas cornizas. Depois deste ponto sobre-se um lado um pouco mais íngreme e depois é um rampão até o cume onde a neve toma formas estranhas, em alguns momentos parecendo cristais (prismas) e outros momentos parecendo corais.
Como não podia deixar de ser no cume há uma capela de pedra construída por pessoas de fé que não são capazes de deixar o topo da montanha ser um marco por si só. Não ficamos nem 15 minutos no cume e começamos a nos apressar para a descida pois o tempo fechou. Não foi motivo para maiores preocupações, mas até deixarmos o rampão do cume não podíamos ver muito mais do que 10 metros à nossa frente.
De volta ao ponto onde comentei que havia uma depressão poderíamos seguir para o cume do Agathiás apenas 20 metros mais baixo do que o Tímios Távros, mas mais próximo. Isto tinha ficado meio que combinado no dia anterior, mas o instrutor democraticamente perguntou se íamos ou não e ele mesmo respondeu que não. Não foi de todo ruim pois acho que alguns não tinham boas condições físicas para continuar subindo e também porque todo aquele plano que comentei no começo definitivamente não seria seguida e assim teríamos mais uma ascenção para fazer nos dias seguintes. Durante a descida pudemos conversar entre nós alguns descontentamentos com relação ao curso e o Dimítris chegou a ter uma discussão como Vangélis sobre a qualidade do equipamento cedido pelo clube. Dentro do possível tentei estimulá-los a não comentar nada para não criar um clima ruim para os próximos dias.
A chegada ao refúgio foi tranquila e depois de nos acomodarmos demos início à preparação de uma macarronada com atum. A Maria também ligou para alguém do clube de Réthymno dizendo que a gasolina estava acabando e pedindo para trazerem mais.
Fiquei espantado com a prestatividade dos caras. Eles vieram a noite, no frio, e tendo que andar os mesmos 40 minutos que nós andamos trazendo um galão de gasolina e alguns quilos de carne. Chegaram na hora da janta e comeram macarrão conosco. O Vangélis que no dia anterior não comemorou o dia do nome dele pois estava doente, já se sentia melhor e ofereceu alguns doces que trouxe na mochila. Depois gentilmente colocaram a carne para assar na lareira para todos que quisessem. Também viram que tinha 3 galões de gasolina no refúgio e que eles não precisam ter vindo, mas ao invés de demonstrarem irritação ou descontentamento, disseram que poderíamos ter inventado uma desculpa melhor se queríamos tanto vê-los. Ao contrário do que esperávamos depois da confraternização eles desceram novamente os 40 minutos de estrada e foram para suas casas.
Antes de deitarmos o Alekos quis ouvir de cada um o que estavam achando do curso, o que estava faltando e etc. Eu fui o primeiro a ter o direito à voz e ao contrário do que eu recomendara aos outros, já que perguntaram, soltei os cachorros e falei (em grego) tudo o que eu tinha para dizer. Critiquei o conteúdo do curso disse que achava errado os intrutores orientarem a pormos crampon sem dizer porque nós colocávamos e eles não. E da mesma forma nós termos que usar capacete e eles não. Reclamei que o Alekos ia sempre muito a frente e que assim ele não via se fazíamos as coisas certas ou não, entre outras. Obviamente para todas as minhas críticas ele teve respostas, umas mais absurdas que as outras, como dizer que apesar de estar longe ele conseguia ver o que cada um fazia (claro, com neblina). A única que ele não refutou foi a do capacete, mas que ainda assim não foi suficiente para ele usar capacete o tempo todo na subida seguinte. Os outros ficaram calados na sua vez, mas alguns vieram me cumprimentar pelo que eu disse...
O dia seguinte amanheceu perfeito, mas ao invés de termos qualquer instrução, alguns aproveitaram para confraternizar tomando vinho e comendo amendoin e castanhas. Alguns se passaram na quantidade de álcool. Para os demais foi absurdamente entediante e uma perda de tempo imensurável. Alguns aproveitaram para descer até os carros e buscar o resto da comida. Esta foi uma entre várias ocasiões em que a, por assim dizer, autoridade do Vangélis foi totalmente eliminada pelo Alekos que apoiou e participou de atitudes que iam completamente contra as orientações dadas pelo Vangélis. No final da tarde alguns aproveitaram para rever a técnica de rapel e os nós ensinados no encontro anterior. Ensinei o Alekos a jogar Crapô e também fizemos um desafio de ver quem conseguia dar a volta por baixo da mesa.
Sábado mais uma vez acordamos cedo para ir ao cume do Agathiás. Saímos por uma calha de neve que termina próxima ao abrigo até o platô que mencionei durante a subida ao Tímios Távros. Mas ao invés de continuarmos pelo mesmo caminho fomos mais ao sul para subir o Agathiás pelo outro lado da montanha. o caminho é igualmente fácil, mas em certo ponto deixamos o caminho natural para subir por uma face mais íngreme pois os alunos queriam subir com ancoragens e corda. Foi algo fantasioso, mas ajudou a animar alguns que não entendem realmente o aquilo, o que acho um absurdo a esta altura do curso. Depois a subida voltou a ser fácil e valeu ter esperado para subir o Agathiás outro dia. O álcool consumido no dia anterior claramente afetou o desempenho de alguns, mas o tempo bom e a vista livre para o sul de Creta estava maravilhosa fazendo desta subida mais interessante do que aquela para o Tímios Távros.
Descemos o cume pelo outro lado, passando pela depressão que separa o Agathiás do Tímios Távros e depois seguindo mesmo caminho do outro dia. Algumas partes descemos correndo na neve e foi divertido. Mas estes mesmo lugares poderiam ter sido por exemplo para praticar técnicas de glissada que não foram ensinadas durante o curso. A chegada ao refúgio foi ótima e muitos aproveitaram para tomar sol. Diga-se de passagem, esquentou bastante de terça para sábado e boa parte da neve que tinha caído de terça para quarta já tinha desaparecido. O Panaiótis e o Giorgos aproveitaram para ir buscar lenha, já que o estoque estava baixo e a lenha que eles tinham pegado no dia anterior seria insuficiente para mais uma noite.
No refúgio fizemos a janta e mais tarde preparei dois panelões de pipoca para a turma. O responsável pelo refúgio chegou com um parceiro. Ambos iam subir a montanha para descer esquiando. Um deles é o responsável do clube pelo refúgio e aí a gente vê como o poder corrompe a pessoa. A recomendação é ligar o gerador no máximo três horas por dia e assim estávamos seguindo. Quando chegou a hora de desligar a luz ele disse que não tinha problema que podíamos deixar ligado. O cara era extremamente boçal em comparação aos outros dois que tinham vindo duas noites atrás. Como os outros dois, estes trouxeram carne para uma batalhão, mas comeram sozinho e quando terminaram ofereceram para os outros, que se sentiram ofendidos ao serem tratados como cachorros. Jogamos um pouco de cartas antes de ir deitar. Não sei bem porque não fomos embora já no final da tarde de sábado, o que seria uma economia com uma noite de refúgio.
Domingo acordamos e depois do café da manhã fizemos uma faxina no refúgio que ele provavelmente não via há anos. Depois de todo o equipamento arrumado nos reunimos do lado de fora para um papo final sobre o conteúdo do curso e descemos até os carros. A descida durante o dia permitiu vermos bem o caminho que fizemos a noite sob neblina. Este lado da montanha, bem como outras partes de Creta já foi uma grande floresta mas ainda há bastante árvores que a deixam bastante diferente da paisagem comum em Creta, de arbustos rasteiros e pedras.
Na estrada de volta para Chaniá vi dois ciclistas na estrada, cada um com uma bandeirinha do Brasil na bicicleta.
Não foi o que eu esperava, mas fiz algo diferente e aprendi coisas novas. O inverno acabou e praticamente não há mais neve nas montanhas. Não pretendo viajar para outros lugares para praticar, por enquanto, então ano que vem acho poderei praticar mais.
Comprei a última edição do Mountaineering: The Freedom of the Hills que contém todo o conteúdo visto no curso e mais um pouco e que deu um bom suporte para entender o curso e ver as deficiências, além da alguma experiência que tenho com escalada e montanhismo no Brasil.
Na semana seguinte fomos ao clube para devolver o equipamento e preenchemos uma avaliação escrita onde aproveitei para desqualificar o instrutor, que pode ser muito bom montanhista e parceiro mas não é um bom professor e para anotar o que foi bom e o que foi ruim no curso.
Link para o álbum desta publicação: Curso: final de semana 3 (final)
Nos reunimos do dia 24 ao dia 29 de março de 2009, terça-feira à domingo. O ponto de encontro foi o Monastério de Arkadi, já na região de Réthymno, de onde partimos no final da tarde de terça para o refúgio do Clube de Montanhismo de Réthymno no Psiloritis.
Psiloritis é o nome da formação montanhosa na região central de Creta e cobre parcialmente as regiões de Heráklio e Réthymno. É no Psoliritis que está o ponto mais alto de Creta, o Tímios Tavros com 2456 m de altura, apenas 3 metros mais alto que o Monte Pachnes na Lefká Óri na região de Chaniá e motivo de brigas eternas entre as duas regiões. Há quem diga que os montanhistas de Chaniá colocam pedras no cume do Pachnes para que ele um dia e torne mais alto...
O refúgio que ficamos no Psiloritis é o que tem a melhor infraestrutura entre os três que visitei. é todo construído de pedra, bem espaçoso e por estas duas características é também bastante frio e úmido. Conta com um gerador a gasolina e com calefação, além de uma lareira. A cozinha é ampla e bem equipada. O banheiro também é espaçoso mas está em condições que deixam a desejar. Como nos outros a entrada tem um hall para tirar as botas que é minúscula e seria mais útil se não estivesse ali. Uma varanda ajuda a proteger um pouco a chegada. Não contei o número de lugares, mas os beliches estão divididos em dois andares e possuem colchão e cobertas.
Partimos do Monastério de Arkadi, o ponto de encontro em fila. Desta vez peguei carona desde Chaniá junto com o Vassílis e também a Kália. Todos da última etapa do curso estava presentes exceto a Vassoúla e a Elise que chegariam mais tarde. Fizemos uma parada rápida numa confeitaria e seguimos adiante. Uma estrada de terra interminável leva até o abrigo. Muito antes de começarmos o trajeto de terra, já era noite e logo uma neblina densa cobriu a montanha não permitindo ver um metro à frente. Seguimos devagar sem ter muita idéia das ribanceiras escondidas pela neblina na beira da estrada. A quarenta minutos de caminhada do refúgio a estrada estava interropida pela neve.
Fomos deitar tarde, depois de 1 h da madrugada. Isto inviabilizou o planejamento inicial de fazer a subido ao Tímios Távros, cume do Psiloritis já na quarta-feira cedo. O planejamento exato era subir o Tímios Távros na quarta, descansar na quinta com teoria, fazer alguns exercícios na neve na sexta e no final da tarde ir de novo para o refúgio Vólikas para no sábado subir um cume tecnicamente mais difícil. Aos poucos foi ficando claro que o instrutor não estava afim de seguir o plano e as mudanças já começaram na quarta-feira. O tempo também não ajudou e mesmo que ele quisesse não poderíamos subir na quarta.
Às 05h00 da manhã de quinta-feira estávamos de pé. Uma tempestade atingiu o abrigo durante a noite e tinha neve colada na janela, mas o tempo no amanhecer estava perfeito. Tomamos café da manhã preparamos o equipamento e saímos pouco antes das 08h00, seguindo a trajeto planejado com mapa e bússola. Inicialmente partimos em dois grupos por uma parte não nevada e depois nos juntamos num grupo só quando começamos a andar pela neve. A subida é bastante simples sem nenhuma exigência técnica e nenhum trecho de grande inclinação. Depois que saímos da parte de terra andamos por um platô de neve e antes de iniciarmos a subida colocamos crampons e pegamos o piolet. Logo também nos encordamos, apesar de que normalmente não seria necessário subir encordado.
Não há muito o que falar da subida, uma neblina forte cobriu boa parte da subida não permitindo ver os arredores. Perto do cume há uma depressão onde pudemos ver pequenas cornizas. Depois deste ponto sobre-se um lado um pouco mais íngreme e depois é um rampão até o cume onde a neve toma formas estranhas, em alguns momentos parecendo cristais (prismas) e outros momentos parecendo corais.
De volta ao ponto onde comentei que havia uma depressão poderíamos seguir para o cume do Agathiás apenas 20 metros mais baixo do que o Tímios Távros, mas mais próximo. Isto tinha ficado meio que combinado no dia anterior, mas o instrutor democraticamente perguntou se íamos ou não e ele mesmo respondeu que não. Não foi de todo ruim pois acho que alguns não tinham boas condições físicas para continuar subindo e também porque todo aquele plano que comentei no começo definitivamente não seria seguida e assim teríamos mais uma ascenção para fazer nos dias seguintes. Durante a descida pudemos conversar entre nós alguns descontentamentos com relação ao curso e o Dimítris chegou a ter uma discussão como Vangélis sobre a qualidade do equipamento cedido pelo clube. Dentro do possível tentei estimulá-los a não comentar nada para não criar um clima ruim para os próximos dias.
A chegada ao refúgio foi tranquila e depois de nos acomodarmos demos início à preparação de uma macarronada com atum. A Maria também ligou para alguém do clube de Réthymno dizendo que a gasolina estava acabando e pedindo para trazerem mais.
Antes de deitarmos o Alekos quis ouvir de cada um o que estavam achando do curso, o que estava faltando e etc. Eu fui o primeiro a ter o direito à voz e ao contrário do que eu recomendara aos outros, já que perguntaram, soltei os cachorros e falei (em grego) tudo o que eu tinha para dizer. Critiquei o conteúdo do curso disse que achava errado os intrutores orientarem a pormos crampon sem dizer porque nós colocávamos e eles não. E da mesma forma nós termos que usar capacete e eles não. Reclamei que o Alekos ia sempre muito a frente e que assim ele não via se fazíamos as coisas certas ou não, entre outras. Obviamente para todas as minhas críticas ele teve respostas, umas mais absurdas que as outras, como dizer que apesar de estar longe ele conseguia ver o que cada um fazia (claro, com neblina). A única que ele não refutou foi a do capacete, mas que ainda assim não foi suficiente para ele usar capacete o tempo todo na subida seguinte. Os outros ficaram calados na sua vez, mas alguns vieram me cumprimentar pelo que eu disse...
Descemos o cume pelo outro lado, passando pela depressão que separa o Agathiás do Tímios Távros e depois seguindo mesmo caminho do outro dia. Algumas partes descemos correndo na neve e foi divertido. Mas estes mesmo lugares poderiam ter sido por exemplo para praticar técnicas de glissada que não foram ensinadas durante o curso. A chegada ao refúgio foi ótima e muitos aproveitaram para tomar sol. Diga-se de passagem, esquentou bastante de terça para sábado e boa parte da neve que tinha caído de terça para quarta já tinha desaparecido. O Panaiótis e o Giorgos aproveitaram para ir buscar lenha, já que o estoque estava baixo e a lenha que eles tinham pegado no dia anterior seria insuficiente para mais uma noite.
Na estrada de volta para Chaniá vi dois ciclistas na estrada, cada um com uma bandeirinha do Brasil na bicicleta.
Não foi o que eu esperava, mas fiz algo diferente e aprendi coisas novas. O inverno acabou e praticamente não há mais neve nas montanhas. Não pretendo viajar para outros lugares para praticar, por enquanto, então ano que vem acho poderei praticar mais.
Comprei a última edição do Mountaineering: The Freedom of the Hills que contém todo o conteúdo visto no curso e mais um pouco e que deu um bom suporte para entender o curso e ver as deficiências, além da alguma experiência que tenho com escalada e montanhismo no Brasil.
Na semana seguinte fomos ao clube para devolver o equipamento e preenchemos uma avaliação escrita onde aproveitei para desqualificar o instrutor, que pode ser muito bom montanhista e parceiro mas não é um bom professor e para anotar o que foi bom e o que foi ruim no curso.
Link para o álbum desta publicação: Curso: final de semana 3 (final)
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quinta-feira, 19 de março de 2009
Curso: final de semana 2
Depois do falecimento do Vangélis Vroutsis, nosso instrutor no primeiro final de semana do curso, acompanhei uma lenga-lenga sobre o que ia acontecer ou não acontecer. Para a felicidade da maior parte dos alunos, chegou-se a um consenso e no último final de semana tivemos o segundo final de semana do curso. E foi assim:
As pessoas
Daqueles que participaram do primeiro encontro, apenas o Leonídas não pode continuar com o grupo; continuaram o Yanis, a Maria, o Dimítris, o Giorgos, o Panaiótis, a Vasúla, e eu. A Kália e a Elise que não puderam participar do primeiro encontro, mas que estavam confirmadas para a sequência se integraram ao grupo. Também se integraram ao grupo o Spiros (falei dele aqui) e o Vassílis. Contamos ainda com o Vangélis Stavroulákis, o assistente, e com o novo instrutor Alexandros Tsilogeorgis, totalizando 13 pessoas. Em geral o grupo se entrosou bem e dividiu bem as tarefas.
O instrutor
O Alekos, como chamamos o instrutor e quase todos os Alexandros da Grécia, é completamente diferente do Vangélis Vroutsis. Muito mais extroverdido, é do tipo que gosta de chamar a atenção, dando gritos totalmente inesperados ou cantando alto. Longe de ser desagradável é ainda um comportamento desnecessário. Por outro lado é tão ou mais qualificado que o Vroutsis, seja pela experiência adquirida em escaladas no Himalaia, Antártida, Peru e diversas montanhas da Europa, seja pela qualificação institucional que lhe confere o status de guia de montanha da UIAGM. Indiscutível que conhecimento não lhe falta e isso ele mostrou na prática, apesar de reconhecer que o mais forte dele é o esqui, de todos os tipos. O grande ganho com a trágica substituição do Vroutsis por ele foi um caráter muito mais prático para o curso, que com o primeiro seria bem mais teórico, como foi o primeiro final de semana.
O refúgio
O refúgio Vólikas está localizado na parte Norte da Léfka Óri, mas mais a oeste do que Távri, onde estivemos da última vez. Cerca de 200 m mais alto na montanha, fica a 1350/1400 m de altitude. Este refúgio era totalmente de pedra e a ação do tempo o destruiu exigindo que fosse totalmente reconstruido recentemente, como relatei aqui. Mas a história da reconstrução, um investimento de mais de 40.000,00 euros pelo clube de montanha é questionável. Um dos participantes do curso trabalha para a companhia que recebe os recursos do Comunidade Européia e que reconstruiu o abrigo. A história que ele contou diz que o investimento total foi de 55.000,00 euros e isto está numa placa no própria abrigo. E todo o dinheiro foi proveniente da Comunidade Européia, nada do clube, que pelo que ele disse, é um poço de dinheiro.
Como sabia que o refúgio era novo, criei uma expectativa a respeito dele e acabei ficando totalmente desapontado. Eles praticamente reconstruíram o abrigo anterior, de pequenas dimensões, mas de alvenaria e forrado de madeira na parte interna. Um mezanino aproveitou melhor o espaço permitindo camas no nível superior. As condições na área de jantar/dormir que é compartilhada é ótima, e uma salamandra ajuda a aquecer o ambiente. A iluminação é garantida com um lustre "lampião" ligado a um bujão de gás, o que acho particularmente perigoso. O fiasco é a cozinha que fica logo na entrada, junto com a área para retirar botas e o equipamento. A cozinha oferece pratos e talheres, um fogareiro e muita sujeira. Além das péssimas condições de manutenção da cozinha, os pacotes de comida que os visitantes vão deixando por preguiça de levar para baixo, bagunçam o ambiente e servem de alimento para os animais que fazem questão de marcar presença com suas fezes.
Longe de eu querer uma mansão na montanha, a cozinha dividir o espaço onde retiramos equipamentos e botas ao entrar me parece anti-higiênico. O pouco espaço conferido à cozinha e o isolamento em relação ao resto do abrigo torna a cozinha um ambiente frio e pouco aconchegante, prejudicando um momento (o de cozinhar) que para mim é ótimo para sociabilidade.
O fundo do poço é o banheiro. Do lado de fora, longe da entrada, é totalmente inconveniente, principalmente se estivesse chovendo. No local de acesso acumula neve e fica na linha de queda do gelo que acumula no telhado. Além da pia e da latrina, mais nada é oferecido, como um local para apoiar coisas ou por o papel higiênico. Uma ducha seria interessante pelo menos para auxiliar num banho de gato. Apesar da minha apreensão com relação à latrina, me parece uma ótima escolha, já que é bem mais higiênica (tanto para o grupo como individualmente) e mais fácil de limpar do que uma patente (vaso sanitário).
O Equipamento
O equipamento foi tomado emprestado do Clube de Montanhismo de Chaniá para aqueles que são socios deste clube e do Clube de Montanhismo de Réthymno para aqueles que são sócios deste outro. Emprestaram cordas, mosquetões, freios oito, crampons, piolet, cordeletes, fitas, capacetes e ancoragens de alumínio para a neve. O equipamento cedido pelo Clube de Chaniá estavam em condições bem ruins, alguns de segurança questionável, como algumas fitas e uma corda. O almoxarife fez questão de nos dar o material do mais velho para o mais novo, uma vez que ele mesmo ia com alguns amigos para uma atividade no final de semana e quis garantir o melhor para ele. O equipamento cedido pelo clube de Réthymno por outro lado, estava impecável e alguns artigos estavam sendo usados pela primeira vez.
O Curso
Devido a mudança de instrutor o curso sofreu uma mudança radical na programação. Como descrevi anteriormente, o novo instrutor é muito mais focado no prático enquanto o anterior era mais teórico. Ambos cobririam o conteúdo mínimo do curso, mas cada um ao seu jeito. Diga-se de passagem, apesar de o curso até agora ter sido muito legal, o conteúdo mínimo é desapontante e realmente básico. Compreende simplesmente navegação e orientação, caminhada com e sem neve, e uso de crampon e piolet. Qualquer coisa adicional fica a critério do instrutor. Para todo o tempo de curso que temos, acho extremamente pouco conteúdo. O tempo é bem mal aproveitado, muito tempo sentando para café da manhã e janta.
Quinta-feira (12/3/2009)
Saí de Chaniá no final da tarde dando carona para a Kália e para a Elise debaixo de chuva. O espaço restante do carro estava ocupado com nossas mochilas e com todo o equipamento cedido pelo clube de Chaniá.
Chegamos ao vilarejo de Néo Horió na hora marcada e encontramos o restante do grupo. Lá, deixamos os carros de passeio e abarrotamos os 4x4, que por sorte eram o suficiente para levar todos e tudo; um Vitara do Vassílis, um Niva do Vangélis e um Honda do Yannis. A Vassoúla não estava presente, mas viria mais tarde e subiria com o Jimmy (Susuki).
De Néo Horió partimos para Madaró o último vilarejo antes da subida para o refúgio Vólikas, uma estrada de cerca de 8 km, de terra/pedra em péssima condições. Em Madaró aliviamos um pouco a carga dos carros, principalmente o Honda que é uma destas farsas estilo EcoSport, transferindo algumas mochilas e equipamentos para a caminhonete do Spiros que nos esperava lá, uma Nissan velha que lembra as Toyotas.
Vinte minutos de subida até os primeiros sinais de neve, e mais dez até vermos uma curva coberta de neve que interrompeu prematuramente a subida de carro. Descarregamos tudo, vestimos gaiters (proteção para evitar a entrada de neve na bota) e seguimos a pé, para ver que poucos metros depois a neve terminava e teria sido tranquilo passar de carro. Cerca de 100 metros depois a estrada terminava e começamos a subir uma encosta relativamente íngreme e acidentada, com pedras e arbustos, parcialmente coberta de neve, um perigo para as articulações. Em não mais do que 20 minutos chegamos ao refúgio. Cada um escolheu sua cama, ajeitou suas coisas e fomos para a primeira conversa oficial do curso, onde o Alekos se apresentou, falou um pouco da história dele e do montanhismo e quis saber um pouco de cada um.
Na sequência preparamos a janta, macarrão com molho e salada. Durante a preparação, um pequeno grupo, no qual me incluo, ficou na cozinha batendo papo e passando frio e detonando um saco de amendoins torrados com casca. Ao contrário do Vroutsis que abominava bebida alcoólica e cigarro, o Alekos não deixou de fumar para subir na montanha e ainda curtiu tsikoudiá (ou rakí), um cachacinha típica de Creta, com direito a brinde e tudo.
Depois da janta já era tarde e sem muitas delongas aos poucos fomos para cama, com uma neve tímida caindo do lado de fora.
Sexta-feira (13/03/2009)
Acordamos bastante tarde, por volta de oito horas. Depois do café, devido ao tempo ruim - estava nevando - aproveitamos para fazer uma parte teórica do curso. Mais uma vez ele falou de vestuário e equipamento, como tinha sido com o Vroutsis, bastante mais rápido, mas mostrando o equipamento. Aproveitamos também para ajustar os crampons nas botas.
Depois de ajustarmos os crampons, tomamos água e fizemos um lanche rápido antes da nossa primeira aula prática. Saímos apenas com piolet, já que ficaríamos perto do refúgio. Nem água levamos por orientação do professor. Mas ele acabou se empolgando e fomos nos afastando. Aprendemos como andar na neve, tipos de pisadas, e como andar usando o piolet como segurança. Revezamos a liderança para marcar as pegadas. Todavia, sem muitas orientações de como escolher uma rota, ou reconhecer lugares mais ou menos expostos de acordo com a qualidade da neve. A neve estava bem fofa. Uma camada de neve fresca de cerca de 15 centímetros tinha abaixo uma camada mais velha de neve que estava marrom, suja do período em que uma nuvem de areia Africana pairou sobre Creta, uma ou duas semanas atrás. A grande quantidade de arbustos e pedras também favorecem o derretimento da neve em alguns pontos nos fazendo afundar as pernas até a altura da cintura algumas vezes.
Caminhamos bastante e paramos em dois pontos diferentes, no primeiro para aprender a interromper uma queda quando não estamos usando piolet e no segundo para interromper uma queda com o uso de piolet. Praticamos bastante em todas as posições possíveis, de cabeça para cima, de cabeça para baixo, tórax para cima, tórax para baixo, e as possíveis combinações. Foi diversão garantida.
Na volta ao abrigo não teve muito bate-papo, preparamos o arroz com frango para a janta, e fomos deitar. O abrigo recebeu ainda mais 5 montanhistas que vieram passar a noite para partir no dia seguinte para outro refúgio. Devido ao vento intenso não foi possível manter a salamandra acesa por causa da fumaça que entrava e tivemos uma noite um pouco mais fria.
Sábado (14/03/2008)
A maioria acordou entusiasmada depois do primeiro dia de aulas e boa parte da manhã foi dedicada a aprender a fazer o nó oito duplo para encordar-se, e como fazer rapel usando mosquetão, oito, cordelete e fitas, dentro do refúgio (conteúdo a princípio, não contemplado pelo cronograma do curso). Para mim nenhuma novidade, exceto o fato dele insistir que o método ensinado é o melhor/mais correto. Já conhecia o método (que é o que aparece no manual da PETZL) mas não usava. Resolvi adotar daqui em diante e é de fato bem confortável, e resolve o problema que sempre tive em mente ao usar o autoblock na perneira da cadeirinha, que em caso de rompimento do anel de segurança ou do próprio mosquetão ou freio, deixaria o escalador em uma posição desequilibrada. Outra coisa interessante foi amarrar o cordelete do autoblock com um nó de fiel no mosquetão ao invés de deixá-lo solto.
Depois de muitas tentativas e de duvidar que a maioria consiga repetir um rapel em segurança, saímos para a parte prática. Revisamos como caminhar na neve, e fomos para um local protegido do vento, que passava dos 50 km/h com rajadas de até 80 km/h, reduzindo sensivelmente a temperatura. Neste local, aprendemos a fazer buscas por vítimas de avalanches (fora do currículo), primeiro usando uma ponteira para neve e improvisando com bastões de caminhadas e depois usando um par de ARVAs, que permitem encontrar muito mais rapidamente e com precisão uma vítima. Obviamente aprendemos também a cavar, usando uma pá para neve.
Enquanto alguns praticavam com o ARVA, os outros deram início a um abrigo na neve, também excepcional ao programa do curso. Perdemos três horas fazendo o tal buraco na neve, o que para mim configurou uma extremo desperdício de tempo. Por alguma razão tola, ele quis que o abrigo tivesse tamanho suficiente para socar todo mundo dentro, e assim foi.
Quando terminamos o abrigo, descemos para perto do refúgio para fazermos a prática de rapel. Fui o primeiro a descer e o único a descer sem segurança por cima. A impaciência do Alekos enquanto eu arrumava com dificuldade o meu equipamento, por causa das luvas, fez com que eu tivesse que descer com a mão esquerda. A altura do rapel não passou dos seis metros, mas foi o suficiente para muitos ficarem emocionados, já que para a maioria era o primeiro rapel da vida. Apesar de ter sido legal ele fugir um pouco do programa para fazer isso, o treinamento foi insuficiente para habilitar os alunos a praticarem rapel por conta própria, se necessário.
Depois de um dia no frio, a sopa preparada com o resto do arroz do dia anterior, até que serviu bem os apetites. Chegou minha vez de lavar a louça, um grande sacrifício dada a temperatura da água. Depois da louça ainda tivemos uma aula sobre hidratação e nutrição na montanha. Foi necessário também fazer minha estréia na latrina, um sucesso. O vento continuava intenso e passamos mais uma noite sem a salamandra ligada. Nada que um saco de dormir de verão mais uma coberta do próprio refúgio não resolvesse.
Domingo (15/03/2009)
O último dia foi o dia de experimentarmos os crampons mesmo a neve estando relativamente fofa. Aprendemos desta vez como andar na neve, em diferentes situações com o uso de crampons e as diferenças de quando não o usamos.
Caminhamos bastante até uma calha de neve onde o Alekos demonstrou uma ascenção com o uso de segurança por corda. Obviamente desnecessário o uso de corda, já que tínhamos praticado quedas num lugar tão ou mais inclinado, a demonstração fez sucesso e mais uma vez elevou os ânimos de todos que se sentiram passando limites subindo encordados, muito legal.
No topo da escalada aprendemos muito superficialmente e sem prática a colocar o espeque de neve para segurança, a fazer o deadman, em poucas palavras enterrar na neve um espeque de neve ou um piolet ou qualquer outra coisa que sirva para fazer uma ancoragem. Aprendemos também a fazer o snow bollard, outro tipo de ancoragem na neve (ver foto).
Depois de aprender sobre ancoragens nos encordamos em duas equipes para aprender um pouco como andar encordados e travar quedas individuais ou em grupo. A prática foi legal, mas deu de ver também que poucos se lembravam como fazer o nó oito. Pouca instrução foi dada também de quando optar por este tipo progressão. Fora o uso de crampons tudo neste dia foi ensinado além do programa, e terminamos praticando um pouco de segurança de corpo na descida de um barranco pedregoso. Descemos de volta para o refúgio. Chegou a hora de empacotar as coisas e descer para casa. Depois da neve no primeiro dia dificilmente nevou e os dias bons, algumas vezes encobertos foram suficientes para dar fim na neve nas partes mais expostas.
O segundo final de semana de curso terminou com uma jantar de confraternização no vilarejo de Arméni. Para o próximo encontro, já na próxima semana o planejamento é passar três noites em Psiloritis e fazer o cume mais alto de Creta e depois voltar por duas noites em Vólikas para fazer o Spatí, um cume de dificuldade moderada acima dos dois mil metros de altitude.
Link para o álbum desta publicação: Curso: final de semana 2
As pessoas
Daqueles que participaram do primeiro encontro, apenas o Leonídas não pode continuar com o grupo; continuaram o Yanis, a Maria, o Dimítris, o Giorgos, o Panaiótis, a Vasúla, e eu. A Kália e a Elise que não puderam participar do primeiro encontro, mas que estavam confirmadas para a sequência se integraram ao grupo. Também se integraram ao grupo o Spiros (falei dele aqui) e o Vassílis. Contamos ainda com o Vangélis Stavroulákis, o assistente, e com o novo instrutor Alexandros Tsilogeorgis, totalizando 13 pessoas. Em geral o grupo se entrosou bem e dividiu bem as tarefas.
O instrutor
O Alekos, como chamamos o instrutor e quase todos os Alexandros da Grécia, é completamente diferente do Vangélis Vroutsis. Muito mais extroverdido, é do tipo que gosta de chamar a atenção, dando gritos totalmente inesperados ou cantando alto. Longe de ser desagradável é ainda um comportamento desnecessário. Por outro lado é tão ou mais qualificado que o Vroutsis, seja pela experiência adquirida em escaladas no Himalaia, Antártida, Peru e diversas montanhas da Europa, seja pela qualificação institucional que lhe confere o status de guia de montanha da UIAGM. Indiscutível que conhecimento não lhe falta e isso ele mostrou na prática, apesar de reconhecer que o mais forte dele é o esqui, de todos os tipos. O grande ganho com a trágica substituição do Vroutsis por ele foi um caráter muito mais prático para o curso, que com o primeiro seria bem mais teórico, como foi o primeiro final de semana.
O refúgio
Como sabia que o refúgio era novo, criei uma expectativa a respeito dele e acabei ficando totalmente desapontado. Eles praticamente reconstruíram o abrigo anterior, de pequenas dimensões, mas de alvenaria e forrado de madeira na parte interna. Um mezanino aproveitou melhor o espaço permitindo camas no nível superior. As condições na área de jantar/dormir que é compartilhada é ótima, e uma salamandra ajuda a aquecer o ambiente. A iluminação é garantida com um lustre "lampião" ligado a um bujão de gás, o que acho particularmente perigoso. O fiasco é a cozinha que fica logo na entrada, junto com a área para retirar botas e o equipamento. A cozinha oferece pratos e talheres, um fogareiro e muita sujeira. Além das péssimas condições de manutenção da cozinha, os pacotes de comida que os visitantes vão deixando por preguiça de levar para baixo, bagunçam o ambiente e servem de alimento para os animais que fazem questão de marcar presença com suas fezes.
O fundo do poço é o banheiro. Do lado de fora, longe da entrada, é totalmente inconveniente, principalmente se estivesse chovendo. No local de acesso acumula neve e fica na linha de queda do gelo que acumula no telhado. Além da pia e da latrina, mais nada é oferecido, como um local para apoiar coisas ou por o papel higiênico. Uma ducha seria interessante pelo menos para auxiliar num banho de gato. Apesar da minha apreensão com relação à latrina, me parece uma ótima escolha, já que é bem mais higiênica (tanto para o grupo como individualmente) e mais fácil de limpar do que uma patente (vaso sanitário).
O Equipamento
O equipamento foi tomado emprestado do Clube de Montanhismo de Chaniá para aqueles que são socios deste clube e do Clube de Montanhismo de Réthymno para aqueles que são sócios deste outro. Emprestaram cordas, mosquetões, freios oito, crampons, piolet, cordeletes, fitas, capacetes e ancoragens de alumínio para a neve. O equipamento cedido pelo Clube de Chaniá estavam em condições bem ruins, alguns de segurança questionável, como algumas fitas e uma corda. O almoxarife fez questão de nos dar o material do mais velho para o mais novo, uma vez que ele mesmo ia com alguns amigos para uma atividade no final de semana e quis garantir o melhor para ele. O equipamento cedido pelo clube de Réthymno por outro lado, estava impecável e alguns artigos estavam sendo usados pela primeira vez.
O Curso
Quinta-feira (12/3/2009)
Saí de Chaniá no final da tarde dando carona para a Kália e para a Elise debaixo de chuva. O espaço restante do carro estava ocupado com nossas mochilas e com todo o equipamento cedido pelo clube de Chaniá.
Chegamos ao vilarejo de Néo Horió na hora marcada e encontramos o restante do grupo. Lá, deixamos os carros de passeio e abarrotamos os 4x4, que por sorte eram o suficiente para levar todos e tudo; um Vitara do Vassílis, um Niva do Vangélis e um Honda do Yannis. A Vassoúla não estava presente, mas viria mais tarde e subiria com o Jimmy (Susuki).
De Néo Horió partimos para Madaró o último vilarejo antes da subida para o refúgio Vólikas, uma estrada de cerca de 8 km, de terra/pedra em péssima condições. Em Madaró aliviamos um pouco a carga dos carros, principalmente o Honda que é uma destas farsas estilo EcoSport, transferindo algumas mochilas e equipamentos para a caminhonete do Spiros que nos esperava lá, uma Nissan velha que lembra as Toyotas.
Vinte minutos de subida até os primeiros sinais de neve, e mais dez até vermos uma curva coberta de neve que interrompeu prematuramente a subida de carro. Descarregamos tudo, vestimos gaiters (proteção para evitar a entrada de neve na bota) e seguimos a pé, para ver que poucos metros depois a neve terminava e teria sido tranquilo passar de carro. Cerca de 100 metros depois a estrada terminava e começamos a subir uma encosta relativamente íngreme e acidentada, com pedras e arbustos, parcialmente coberta de neve, um perigo para as articulações. Em não mais do que 20 minutos chegamos ao refúgio. Cada um escolheu sua cama, ajeitou suas coisas e fomos para a primeira conversa oficial do curso, onde o Alekos se apresentou, falou um pouco da história dele e do montanhismo e quis saber um pouco de cada um.
Depois da janta já era tarde e sem muitas delongas aos poucos fomos para cama, com uma neve tímida caindo do lado de fora.
Sexta-feira (13/03/2009)
Acordamos bastante tarde, por volta de oito horas. Depois do café, devido ao tempo ruim - estava nevando - aproveitamos para fazer uma parte teórica do curso. Mais uma vez ele falou de vestuário e equipamento, como tinha sido com o Vroutsis, bastante mais rápido, mas mostrando o equipamento. Aproveitamos também para ajustar os crampons nas botas.
Depois de ajustarmos os crampons, tomamos água e fizemos um lanche rápido antes da nossa primeira aula prática. Saímos apenas com piolet, já que ficaríamos perto do refúgio. Nem água levamos por orientação do professor. Mas ele acabou se empolgando e fomos nos afastando. Aprendemos como andar na neve, tipos de pisadas, e como andar usando o piolet como segurança. Revezamos a liderança para marcar as pegadas. Todavia, sem muitas orientações de como escolher uma rota, ou reconhecer lugares mais ou menos expostos de acordo com a qualidade da neve. A neve estava bem fofa. Uma camada de neve fresca de cerca de 15 centímetros tinha abaixo uma camada mais velha de neve que estava marrom, suja do período em que uma nuvem de areia Africana pairou sobre Creta, uma ou duas semanas atrás. A grande quantidade de arbustos e pedras também favorecem o derretimento da neve em alguns pontos nos fazendo afundar as pernas até a altura da cintura algumas vezes.
Caminhamos bastante e paramos em dois pontos diferentes, no primeiro para aprender a interromper uma queda quando não estamos usando piolet e no segundo para interromper uma queda com o uso de piolet. Praticamos bastante em todas as posições possíveis, de cabeça para cima, de cabeça para baixo, tórax para cima, tórax para baixo, e as possíveis combinações. Foi diversão garantida.
Na volta ao abrigo não teve muito bate-papo, preparamos o arroz com frango para a janta, e fomos deitar. O abrigo recebeu ainda mais 5 montanhistas que vieram passar a noite para partir no dia seguinte para outro refúgio. Devido ao vento intenso não foi possível manter a salamandra acesa por causa da fumaça que entrava e tivemos uma noite um pouco mais fria.
Sábado (14/03/2008)
Depois de muitas tentativas e de duvidar que a maioria consiga repetir um rapel em segurança, saímos para a parte prática. Revisamos como caminhar na neve, e fomos para um local protegido do vento, que passava dos 50 km/h com rajadas de até 80 km/h, reduzindo sensivelmente a temperatura. Neste local, aprendemos a fazer buscas por vítimas de avalanches (fora do currículo), primeiro usando uma ponteira para neve e improvisando com bastões de caminhadas e depois usando um par de ARVAs, que permitem encontrar muito mais rapidamente e com precisão uma vítima. Obviamente aprendemos também a cavar, usando uma pá para neve.
Enquanto alguns praticavam com o ARVA, os outros deram início a um abrigo na neve, também excepcional ao programa do curso. Perdemos três horas fazendo o tal buraco na neve, o que para mim configurou uma extremo desperdício de tempo. Por alguma razão tola, ele quis que o abrigo tivesse tamanho suficiente para socar todo mundo dentro, e assim foi.
Depois de um dia no frio, a sopa preparada com o resto do arroz do dia anterior, até que serviu bem os apetites. Chegou minha vez de lavar a louça, um grande sacrifício dada a temperatura da água. Depois da louça ainda tivemos uma aula sobre hidratação e nutrição na montanha. Foi necessário também fazer minha estréia na latrina, um sucesso. O vento continuava intenso e passamos mais uma noite sem a salamandra ligada. Nada que um saco de dormir de verão mais uma coberta do próprio refúgio não resolvesse.
Domingo (15/03/2009)
O último dia foi o dia de experimentarmos os crampons mesmo a neve estando relativamente fofa. Aprendemos desta vez como andar na neve, em diferentes situações com o uso de crampons e as diferenças de quando não o usamos.
Caminhamos bastante até uma calha de neve onde o Alekos demonstrou uma ascenção com o uso de segurança por corda. Obviamente desnecessário o uso de corda, já que tínhamos praticado quedas num lugar tão ou mais inclinado, a demonstração fez sucesso e mais uma vez elevou os ânimos de todos que se sentiram passando limites subindo encordados, muito legal.
Depois de aprender sobre ancoragens nos encordamos em duas equipes para aprender um pouco como andar encordados e travar quedas individuais ou em grupo. A prática foi legal, mas deu de ver também que poucos se lembravam como fazer o nó oito. Pouca instrução foi dada também de quando optar por este tipo progressão. Fora o uso de crampons tudo neste dia foi ensinado além do programa, e terminamos praticando um pouco de segurança de corpo na descida de um barranco pedregoso. Descemos de volta para o refúgio. Chegou a hora de empacotar as coisas e descer para casa. Depois da neve no primeiro dia dificilmente nevou e os dias bons, algumas vezes encobertos foram suficientes para dar fim na neve nas partes mais expostas.
Link para o álbum desta publicação: Curso: final de semana 2
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domingo, 8 de março de 2009
Detesto carnaval
Mas como sou muito curioso, este ano fui a Réthymno para ver como é o segundo maior carnaval da Grécia. O desfile acontece no último final de semana do carnaval (sim, aqui o carnaval acontece em mais de um final de semana), no domingo (01/03/2009). Este ano o desfile iniciou-se às 14h00 e nem quero saber que horas acabou. É deprimente, o barulho pelo barulho, bagunça pela bagunça, e uma falsa alegria estimulada por nada menos que a bebida. Pode ser uma visão um pouco amarga de alguém que já foi sabendo que não ia gostar, e não gostou!
Mas nem tudo foi perdido, a viagem só aconteceu porque antes de ir para o Carnaval, fomos escalar em Kalypsos, Natasa, Kostas, Anamaria e eu. Também apareceram lá o Christos, o Vassílis e uma menina.
Link para o álbum desta publicação: Detesto carnaval
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sábado, 31 de janeiro de 2009
Curso: final de semana 1
Sábado dia 24/01/2009, chegou o início do tão esperado curso de montanhismo. O ponto de encontro foi o vilarejo de Askífou, a leste da cadeia de montanhas Léfka Óri, um pouco antes do início da Garganta de Imbros, na região de Chaniá. Fui o último a chegar às 11h30 com meia hora de atraso. Entrei na taverna indicada pelo Vangélis, um estabelecimento tipicamente cretense em péssimas condições - mas ninguém parecia dar bola -, com funcionários tipicamente cretenses, com cabelo, barba e bigode bem escuros e feições locais.
Em uma mesa (obviamente) cheia de xícaras de café vi o grupo reunido. Já conhecia todos os participantes, apenas 7 (8 comigo) dos 10 inscritos (Yanis, Maria, Leonídas, Dimítris, Giorgos, Panaiótis e Vasúla) , o assistente do instrutor, o Vangélis, e fui introduzido ao instrutor, o Vangélis! Ao contrário do que estava combinado ficamos na taverna até chegar outro grupo que estava com a chave do abrigo. Em meio ao ruído de uma TV e de locais jogando cartas, começou o curso.
Praticamente um bate papo, primeiro ele ouviu de cada um qual era a experiência com montanhismo e quais as expectativas com o curso. Em seguida deu um panorama muito breve sobre o curso, mais para confirmar as datas e locais dos próximos encontros do que comentar o conteúdo que será abordado, que de certa forma ainda é uma incógnita.
Na sequência começou a falar sobre equipamentos com poucos detalhes sobre os equipamentos técnicos que veremos mais tarde, mas focando no vestuário, saco de dormir e mochila. Uma pena que, exceto pela mochila que ele inclusive explicou como regular, nenhum outro equipamento teve um exemplar exibido durante a palestra. O tempo passou voando, foram cerca de 5 horas de exposição, incluindo pequenas pausas para descanso. Em uma das pausas degustamos deliciosas Sfakianópitas (panquecas recheadas com queijo local e cobertas com mel), especialidade local. Quando o outro grupo finalmente chegou e começamos a subida para o refúgio de montanha de Távri, também se juntaram a nós a Anastasía e a Lída.
Apesar de ser possível ir de carro até o refúgio, subimos apenas um trecho de carro até o início da trilha, onde entregamos nossa comida para o grupo que subia de carro e seguimos a pé. A trilha é um zig-zag bastante íngreme em solo rico em matéria orgânica e com muitas pedras, ótima para acidentes. A vegetação é predominantemente de algum tipo de pinus até nos aproximarmos dos 1000 m de altitude, quando a vegetação baixa e espinhosa típica de Creta e pedras passam a predominar.
Em cerca de 1 hora de caminhada chegamos ao refúgio já durante o entardecer. O outro grupo era formado por cerca de 40 crianças e mais uma dúzia de adultos os acompanhando. Eles subiram a trilha conosco comportadamente, mas ao chegar no abrigo a algazarra começou.
A 1200 m do nível do mar em meio a alguma neblina e a luz fraca do entardecer pude ver dois ou três picos acima de 2000 m e notar que todos estão com pouca neve, basicamente em encostas colos e depressões mais protegidos do sol e do vento. Apenas por volta do Natal as temperaturas caíram e nevou bastante. Desde então o clima está ameno. Não chegou a ser uma decepção pois no trajeto por estradas do interior e mesmo da cidade já era possível ver que falta neve neste inverno.
A edificação do refúgio é maior do que eu esperava, uma casa de dois andares mais um porão. Arquitetonicamente está longe de ser charmoso, mas oferece uma infraestrutura boa. O interior um pouco desorganizado é todo mobiliado e pode ser aconchegante. No andar térreo há uma sala para deixar as botas antes de entrar que tem a disposição sandálias de borracha. Dois banheiros com pia e patente (vaso sanitário), uma sala grande com lareira, bancos e mesas, e uma pequena cozinha equipada com fogão industrial de duas bocas, pia, armários e utensílios de cozinha, como talheres, panelas e pratos, completam o andar térreo. O porão serve de depósito e o andar de cima também tem dois banheiros, e está dividido em três quartos com beliches oficialmente com 40 lugares. Um gerador a diesel na parte externa do refúgio fornece energia elétrica e há água quente pelo menos na cozinha. Não parecia ter no banheiro apesar das torneiras de água quente existirem. Também não vi chuveiro, e para ser sincero, vi pouquíssimas pessoas indo ao banheiro para higiene pessoal, como lavar as mãos e escovar os dentes (não estou querendo insinuar nada).
Entramos no refúgio e ocupamos um dos quartos, com 12 lugares, exatamente do tamanho do nosso grupo onde deixamos as mochilas. Sem tempo para descanso nos reunimos numa mesa para retomar a aula. Mesmo com a lareira ligada estava frio dentro e boa parte do tempo fiquei com luvas de lã e com touca. Não fiquei sabendo a temperatura externa, mas a interna não passou dos 14 graus mesmo com a lareira a todo vapor. Nos quartos não tinha lareira e obviamente estava bem mais frio.
O tema para o resto do final de semana era orientação em montanha com uso de mapa e bússola. Não temo dizer que a aula não foi muito bem preparada, exceto por cópias do mapa da região onde estávamos, transferidor, escalímetro e bússolas. Porém foi muito boa, mesmo com a algazarra dos adultos e crianças que ocupavam a mesma sala. Como já tinha aprendido a maior parte do conteúdo no passado, foi bastante fácil entender em grego o que ele dizia e serviu como uma ótima revisão para o assunto e para lembrar coisas que já tinha esquecido. Ele explicou como fazer leitura do mapa, escalas, medir distâncias, estimativas de tempo e distância do percurso, como saber onde estamos com base em acidentes geográficos, como identificar acidentes geográficos sabendo onde estamos, entre outras coisas. Impressionante ver como as pessoas tem dificuldades com estas coisas, principalmente na parte matemática como escalas e estimativas de distâncias usando o conhecido triângulo de pitágoras. A Anastasía e a Lída que já tinham feito o curso ano passado e a primeira que está fazendo agora o curso intermediário praticamente refizeram o curso uma vez que não se lembravam de praticamente nada e mostraram as mesmas dificuldades os novos alunos. O último conteúdo do dia foi como planejar uma rota no mapa. Planejamos uma rota didática para ser seguida no domingo. Foram cerca de 5 horas de exposição, com duas pequenas pausas para descanso, mais uma meia hora para a janta, macarrão com atum no molho de tomate e salada.
Depois da janta, que foi muito boa, fomos fazer uma atividade com bússola no lado de fora do refúgio, numa região plana. A idéia do exercício era basicamente dado um ponto de partida e uma direção, desenharmos um hexágono e terminarmos no mesmo ponto. Fomos divididos em duas equipes de quatro pessoas. As distâncias foram medidas com duas cordas. Ingenuamente uma das cordas usadas foi a minha a pedido do Vangélis assistente. Sem saber bem para que seria usada a corda, mas achando que seria para ensinar algo a respeito de nós ou encordamento, levei a corda solicitada. Na hora do jogo ele pediu a corda e não consegui me sentir confortável em dizer que não, estragar o curso e criar um clima. O resultado foi uma corda de escalada completamente embarrada que tive que lavar ao chegar em casa e de onde tirei mais de 100 espinhos com pinça.
Durante o exercício me senti de volta ao escoteiro. Quando me dei conta eu já estava sendo arrastado pela corda na tentativa de completar o exercício o mais rápido possível. Meu grupo não entendeu muito bem o propósito do exercício (praticar o que foi aprendido na aula) e fez tudo correndo para ganhar a partida. No final das contas, só um usou a bússola, dois recolheram a corda e outro ficou de ponto de referência. O outro grupo levou 3 vezes mais tempo do que nós para completar o exercício, mas todos praticaram. Depois do exercício voltamos para o refúgio já passando de uma da madrugada, para deitar e acordar no dia seguinte as 7 horas da manhã.
Acordamos como combinado, mas logo veio a aviso de relaxar. Alguns adultos do grupo das crianças estavam dormindo sobre as mesas no andar de baixo e teríamos que esperar eles acordarem para descermos para tomar café e começar a aula. Ganhamos uma hora extra de sono.
Depois do café da manhã, com chá, pão, queijo, margarina e mel, nos aprontamos rapidamente para seguir o percurso planejado na noite anterior. A rota foi totalmente didática. Traçamos a rota a partir do refúgio passando atravessando uma estrada. Depois subiríamos até o pico de uma elevação de cerca de 150 a 200 m e para depois descer pelo outro lado e chegarmos na mesma estrada que cruzáramos antes. Dali seguiríamos por uma crista até um pico com cerca de 2100 m, o Kastro. Saímos os 12 para começar o exercício mas o mal tempo fez o Vangélis assistente, a Lída, a Anastasía e o Leonídas desistirem. A Vasúla deixou o refúgio cedo pois tinha que trabalhar.
A chuva fraca não foi um problema até atingirmos o ponto médio do nosso trajeto, o pico da elevação. Depois disto o vento aumentou significativamente a ponto de nos desequilibrar e a chuva também; descemos sob péssimas condições. Chovia deitado e não demorou para minha calça não impermeável ficar encharcada. Logo minha bota começou a falhar na lingueta, antes da propria água que escorria pela perna ensopar meus pés. Quando atingimos novamente a estrada não continuamos a rota até o Kastro. Não sei bem se era isto o planejado ou se não continuamos por causa da forte chuva e vento. Mas o fato é que quando o professor disse que tínhamos terminado o exercício e nos saído muito bem, o Dimítri estendeu a mão para mim e gritou "Aeee Rodrigo", celebrando a aventura, que para mim foi só mais um passeio na chuva. mas foi muito legal ver a animação dele e também dos outros. Tiramos até foto.
Voltamos ao refúgio ainda sob chuva e vento. Na chegada foi engraçado ver o Giorgos pedindo a atenção para mostrar ele virando a bota dele como se fosse um caneco para mostrar a água caindo. Troquei apenas as meias, já que em menos de duas horas começaríamos a nossa descida. Enquanto isso, eu e outros na mesma situação ficamos plantados em frente à lareira secando. Fizemos toda a descida pelo mesmo trajeto da subida, sem chuva, a qual voltou forte logo que chegamos no carro.
De maneira geral o primeiro final de semana de curso foi bom. A parte teórica, principalmente a parte de orientação foi muito boa. Uma pena que não incluíram também o uso de GPS. A parte prática deixou a desejar, mas é fato que foi prejudicada pela chuva, razão pela qual descemos do refúgio por volta de 13h30, quanto o planejado era 16h00. De toda maneira a idéia é praticarmos mais um pouco nas próximas aulas, quando o planejamento de rotas deverá ser ensinado não apenas com base no mapa, mas também com base nas condições da montanha.
O grupo é legal. Todos parecem bastante entusiasmados. O Giorgos apesar de ter mais de 20 anos ainda é um pouco crianção e levou duas ou três mijadinhas legais sobre como se comportar em equipe. O Dimítris e o Yannis apresentaram alguma dificuldade em entender a parte teórica, principalmente o triângulo de Pitágoras, mas estão entre os mais capazes para realizar trabalhos em equipe. Imagino que o trabalho deles exija este tipo de atitude. Os demais também foram bastante simpáticos e todos foram bastante atenciosos comigo, preocupados em que eu entendesse as coisas ditas em grego.
Um aspecto que preocupa é o fato de estar tarde e a próxima aula ser apenas em meados de fevereiro com introdução a escalada. Depois apenas em março iniciaremos as aulas na neve, quando pode ser tarde e nem mesmo ter neve para o curso. Para piorar a situação fiquei sabendo esta tarde pelo Kostas que o Vangélis instrutor faleceu hoje por causa desconhecida em uma montanha na região central da Grécia, provavelmente em virtude de um ataque cardíaco. Uma pena, pois ele foi muito paciente e atencioso, e era alguém que realmente sabia do que estava falando. Potencialmente o cronograma irá mudar com um novo instrutor ou até mesmo haverá o cancelamento do curso.
Fiz pouquíssimas fotos, e publicarei mais fotos quando receber a que os outros tiraram. Desculpem pela extensão do texto, mas o objetivo é registrar isto para eu me lembrar depois, e olha que devo ter esquecido de vários detalhes "interessantes".
Link para o álbum de fotos desta publicação: Curso: final de semana 1
Em uma mesa (obviamente) cheia de xícaras de café vi o grupo reunido. Já conhecia todos os participantes, apenas 7 (8 comigo) dos 10 inscritos (Yanis, Maria, Leonídas, Dimítris, Giorgos, Panaiótis e Vasúla) , o assistente do instrutor, o Vangélis, e fui introduzido ao instrutor, o Vangélis! Ao contrário do que estava combinado ficamos na taverna até chegar outro grupo que estava com a chave do abrigo. Em meio ao ruído de uma TV e de locais jogando cartas, começou o curso.
Praticamente um bate papo, primeiro ele ouviu de cada um qual era a experiência com montanhismo e quais as expectativas com o curso. Em seguida deu um panorama muito breve sobre o curso, mais para confirmar as datas e locais dos próximos encontros do que comentar o conteúdo que será abordado, que de certa forma ainda é uma incógnita.
Na sequência começou a falar sobre equipamentos com poucos detalhes sobre os equipamentos técnicos que veremos mais tarde, mas focando no vestuário, saco de dormir e mochila. Uma pena que, exceto pela mochila que ele inclusive explicou como regular, nenhum outro equipamento teve um exemplar exibido durante a palestra. O tempo passou voando, foram cerca de 5 horas de exposição, incluindo pequenas pausas para descanso. Em uma das pausas degustamos deliciosas Sfakianópitas (panquecas recheadas com queijo local e cobertas com mel), especialidade local. Quando o outro grupo finalmente chegou e começamos a subida para o refúgio de montanha de Távri, também se juntaram a nós a Anastasía e a Lída.
Apesar de ser possível ir de carro até o refúgio, subimos apenas um trecho de carro até o início da trilha, onde entregamos nossa comida para o grupo que subia de carro e seguimos a pé. A trilha é um zig-zag bastante íngreme em solo rico em matéria orgânica e com muitas pedras, ótima para acidentes. A vegetação é predominantemente de algum tipo de pinus até nos aproximarmos dos 1000 m de altitude, quando a vegetação baixa e espinhosa típica de Creta e pedras passam a predominar.
Em cerca de 1 hora de caminhada chegamos ao refúgio já durante o entardecer. O outro grupo era formado por cerca de 40 crianças e mais uma dúzia de adultos os acompanhando. Eles subiram a trilha conosco comportadamente, mas ao chegar no abrigo a algazarra começou.
A 1200 m do nível do mar em meio a alguma neblina e a luz fraca do entardecer pude ver dois ou três picos acima de 2000 m e notar que todos estão com pouca neve, basicamente em encostas colos e depressões mais protegidos do sol e do vento. Apenas por volta do Natal as temperaturas caíram e nevou bastante. Desde então o clima está ameno. Não chegou a ser uma decepção pois no trajeto por estradas do interior e mesmo da cidade já era possível ver que falta neve neste inverno.
Entramos no refúgio e ocupamos um dos quartos, com 12 lugares, exatamente do tamanho do nosso grupo onde deixamos as mochilas. Sem tempo para descanso nos reunimos numa mesa para retomar a aula. Mesmo com a lareira ligada estava frio dentro e boa parte do tempo fiquei com luvas de lã e com touca. Não fiquei sabendo a temperatura externa, mas a interna não passou dos 14 graus mesmo com a lareira a todo vapor. Nos quartos não tinha lareira e obviamente estava bem mais frio.
Durante o exercício me senti de volta ao escoteiro. Quando me dei conta eu já estava sendo arrastado pela corda na tentativa de completar o exercício o mais rápido possível. Meu grupo não entendeu muito bem o propósito do exercício (praticar o que foi aprendido na aula) e fez tudo correndo para ganhar a partida. No final das contas, só um usou a bússola, dois recolheram a corda e outro ficou de ponto de referência. O outro grupo levou 3 vezes mais tempo do que nós para completar o exercício, mas todos praticaram. Depois do exercício voltamos para o refúgio já passando de uma da madrugada, para deitar e acordar no dia seguinte as 7 horas da manhã.
Acordamos como combinado, mas logo veio a aviso de relaxar. Alguns adultos do grupo das crianças estavam dormindo sobre as mesas no andar de baixo e teríamos que esperar eles acordarem para descermos para tomar café e começar a aula. Ganhamos uma hora extra de sono.
Depois do café da manhã, com chá, pão, queijo, margarina e mel, nos aprontamos rapidamente para seguir o percurso planejado na noite anterior. A rota foi totalmente didática. Traçamos a rota a partir do refúgio passando atravessando uma estrada. Depois subiríamos até o pico de uma elevação de cerca de 150 a 200 m e para depois descer pelo outro lado e chegarmos na mesma estrada que cruzáramos antes. Dali seguiríamos por uma crista até um pico com cerca de 2100 m, o Kastro. Saímos os 12 para começar o exercício mas o mal tempo fez o Vangélis assistente, a Lída, a Anastasía e o Leonídas desistirem. A Vasúla deixou o refúgio cedo pois tinha que trabalhar.
Voltamos ao refúgio ainda sob chuva e vento. Na chegada foi engraçado ver o Giorgos pedindo a atenção para mostrar ele virando a bota dele como se fosse um caneco para mostrar a água caindo. Troquei apenas as meias, já que em menos de duas horas começaríamos a nossa descida. Enquanto isso, eu e outros na mesma situação ficamos plantados em frente à lareira secando. Fizemos toda a descida pelo mesmo trajeto da subida, sem chuva, a qual voltou forte logo que chegamos no carro.
De maneira geral o primeiro final de semana de curso foi bom. A parte teórica, principalmente a parte de orientação foi muito boa. Uma pena que não incluíram também o uso de GPS. A parte prática deixou a desejar, mas é fato que foi prejudicada pela chuva, razão pela qual descemos do refúgio por volta de 13h30, quanto o planejado era 16h00. De toda maneira a idéia é praticarmos mais um pouco nas próximas aulas, quando o planejamento de rotas deverá ser ensinado não apenas com base no mapa, mas também com base nas condições da montanha.
O grupo é legal. Todos parecem bastante entusiasmados. O Giorgos apesar de ter mais de 20 anos ainda é um pouco crianção e levou duas ou três mijadinhas legais sobre como se comportar em equipe. O Dimítris e o Yannis apresentaram alguma dificuldade em entender a parte teórica, principalmente o triângulo de Pitágoras, mas estão entre os mais capazes para realizar trabalhos em equipe. Imagino que o trabalho deles exija este tipo de atitude. Os demais também foram bastante simpáticos e todos foram bastante atenciosos comigo, preocupados em que eu entendesse as coisas ditas em grego.
Um aspecto que preocupa é o fato de estar tarde e a próxima aula ser apenas em meados de fevereiro com introdução a escalada. Depois apenas em março iniciaremos as aulas na neve, quando pode ser tarde e nem mesmo ter neve para o curso. Para piorar a situação fiquei sabendo esta tarde pelo Kostas que o Vangélis instrutor faleceu hoje por causa desconhecida em uma montanha na região central da Grécia, provavelmente em virtude de um ataque cardíaco. Uma pena, pois ele foi muito paciente e atencioso, e era alguém que realmente sabia do que estava falando. Potencialmente o cronograma irá mudar com um novo instrutor ou até mesmo haverá o cancelamento do curso.
Fiz pouquíssimas fotos, e publicarei mais fotos quando receber a que os outros tiraram. Desculpem pela extensão do texto, mas o objetivo é registrar isto para eu me lembrar depois, e olha que devo ter esquecido de vários detalhes "interessantes".
Link para o álbum de fotos desta publicação: Curso: final de semana 1
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